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Primeiro trecho: Guaratinguetá-SP a Santos-SP

27/12/2004 - 1º dia - Guaratinguetá-Cunha (54,73 Km)
Hoje finalmente começei a viagem que sonhei nos últimos anos. Dizem que o mais difícil numa grande viagem é partir, e é assim mesmo. Nos últimos dias parecia que ninguém queria me deixar começar, e sempre com uma boa razão: ou era para passar o reveillon com minha mãe - e é sempre difícil negar um pedido de mãe - ou era meu irmão e a galera de Guará, a turma do Guelo, falando para eu passar as festas com eles em Ubatuba, além da minha cunhada, a Pérola, que é farmacêutica, e achava melhor eu me recuperar primeiro de uma tosse chata que já me acompanhava a alguns dias.
Mas eu parti. Eu tinha que começar hoje! O único que parecia tranquilo com minha partida era o Paizão. Nós acordamos, tomamos um belo café da manhã, com direito a uma aula sobre pesquisa operacional, uma das áreas que ele ensina na Unesp (no café da manhã com um professor doutor os assuntos não são só a novela de ontem...). Depois, com calma, arrumamos os últimos detalhes na Inocência, minha bicicleta.
Na véspera da partida, eu, o Dino (meu irmão) e a Pérola (minha cunhada), na arrumação dos 37 Kg de bagagem (metade do meu peso). A Inocência pesa 16 Kg. (a balança se recusou a pesar meu irmão...;-)
Eu e o Paizão em frente de casa. (O jipão tá na garagem, só esperando a chance de outra grande viagem...
Eu e a Rose, namorada do Pai.
Toda grande jornada começa com o primeiro passo. No meu caso, começou com a primeira pedalada. E ela foi dada numa feliz manhã nublada, sem chuva, ótima para se pedalar. Todos me perguntavam porque eu não embarcava a bicicleta num ônibus ou avião e começava a viagem já de longe. Para mim não seria a mesma coisa que sair da casa de meu pai pela manhã, depois de tomar café com ele, passar no apartamento de minha mãe para lhe dar um beijão e me despedir dela, e começar a pedalar em Guará, a cidade onde cresci, passei minha infância, onde tenho muitos parentes e amigos, mas de onde eu sempre sonhei sair para conquistar o mundo. Simbolicamente, na minha cabeça, essa foi a concretização não de um sonho planejado nos últimos 4 anos, mas de um sonho de vida, de quando eu era menino e lia os livros de Monteiro Lobato, Júlio Verne, as Aventuras de Róbson Crusoé, Mark Twain, R. Kypling, e tantos outros autores que me fizeram viajar muito antes de sair de casa. Depois, os sonhos aventureiros do adolescente de uma cidadezinha do interior, que lia os relatos do Amyr Klink e sonhava um dia poder conhecer o mundo. Era isso o que sempre quis fazer, mas que com 16, 17 anos não tinha condições. Agora eu tenho. Estou 100% preparado. Com a Inocência carregada com tudo o que é necessário para a sobrevivência, com autonomia de 7 dias (inclusive sem precisar lavar roupas), com barraca, fogareiro, roupas de inverno e tudo o mais, eu estou preparado. O corpo ainda não está completamente em forma, mas tenho certeza que vou adquirí-la agora, durante a viagem. É só começar devagar, "poupando equipamento". Mas meu maior preparo é o psicológico. Na minha cabeça tudo está organizado, planejado e replanejado, e funciona como um relógio. Me sinto preparado inclusive para os imprevistos que possam ocorrer.
A galera da turma do Guelo.
Eu e a Pen, minha mãezinha querida!!!
Sofia (irmã do Gregório), Nair e Cris (primas), minha Mama e o Gregório, namorado dela.
Torcida organizada na partida.
Fui me afastando aos pouquinhos da minha cidade. Parecia que se eu olhasse para trás ainda poderia ver todos me acenando. Mas agora eu olho para a frente. A subida da serra do Mar até Cunha é poderosa, eu já conhecia de outras pedaladas. Fui bem devagar, as vezes empurrando a Inocência, para acostumar meu corpo ao novo regime de trabalho. Era estranho também andar numa bicicleta carregada com quase a metade do meu peso, uns 38 Kg de bagagem, fora os 15 Kg da Inocência. O equilíbrio é totalmente diferente, parece um barco. Cheguei tranquilo em Cunha, depois de suar muito e de uma parada para lanche na Rocinha, onde não resisti e, mesmo com a tosse, tomei duas Caracu geladinhas.
Nascer do Sol em Cunha-SP, a primeira parada.
28/12/04 - 2º dia - Cunha-Paraty (50,98 Km)
A estrada a partir de Cunha tem menos movimento, mas continua perigosa. Por não ter acostamento, eu saia no mato toda vez que algum carro ia me ultrapassar. Normalmente eu ia na contramão, e mesmo se o carro viesse no mesmo sentido que eu, portanto na outra pista, eu saia para o mato na lateral da estrada. Todo cuidado é pouco! Pude comprovar isso no maior susto que levei até aqui: eu estava numa subida, na contramão, quando ouvi o barulho de um caminhão e saí para o mato na lateral da pista. Esperei o caminhão passar, e quando ia voltar para a estrada, um carro que estava atrás do caminhão o ultrapassou, e passou por mim em alta velocidade. Eu não o tinha escutado por causa do caminhão, e se tivesse ficado na estrada ou então voltado rápido para ela, o carro poderia ter batido em mim.
O segundo susto foi numa grande descida, cheia de curvas, onde mesmo freando muito, alcançei 60 Km/h, por causa do peso. Na última curva apareceu uma grande buraco no asfalto e tive que desviar. Foi uma manobra radical, a adrenalina correu mais que num salto de bungee jump!
Trecho Cunha-SP a Paraty-RJ.
Casinha triste...
Cachoeira na estrada Cunha-Paraty.
A descida da serra também foi radical. O forte nevoeiro acabou se trasnformando numa chuva fina, que me deixou encharcado. Era o batismo de água da Inocência e seus alforjes, com tudo embalado em sacos plásticos. Nessa descida, de terra, era impossível manter uma velocidade baixa. Com meu peso e o dos alforjes, a bike despencava morro abaixo, e eu tentava segurá-la para não cair em nenhum buraco ou passar por cima de alguma das milhares depedras soltas. Uma queda seria desastrosa.
Eu ultrapassava a mil por hora os carros que tinham me passado por mim no trecho de asfalto, mesmo apertando os dois freios ao máximo. Mesmo com a chuva a roda ficava muito quente por causa do atrito do freio, e eu parava as vezes para deixá-la esfriar.
Descida da serra, no trecho de terra, com chuva. (Quem disse que a bike freava?)
Em Paraty fiquei no Albergue da Juventude, ou Hostel, e já conheci uma turma, de todas as partes do mundo. Até recebi convites para ficar em Bruxelas e em Madrid! Fui jantar uma lula recheada com camarão com o pessoal do albergue, e não resisti às cervejinhas geladas. O resultado foi mais uma crise de tosse, além de acordar com uma dorzinha de cabeça... Prometi que a partir de hoje só vou voltar a tomar quando estiver 100% curado dessa maldita tosse!

29/12/04 - 3º dia - Paraty-Lanchonete Cantinho da Titia (Rodovia Rio-Santos) (26,03 Km)
Me despedi de todos no albergue e parti rumo à Ubatuba. Além da dor de cabeça, percebi que tinham "sumido" com meus óculos escuros... Logo nos primeiros quilômetros da Rio-Santos, parei para tomar um analgésico e esperar a dor passar, na sombra. Foi só ficar parado ao lado da Inocência que começaram a surgir os curiosos, dentre eles um casal de irlandeses, e o Tigrão, um ciclobiruta que fez de Limeira até Guará ontem, e hoje já tinha me alcançado. Ele pedalava só com uma mochilinha com seus trecos, um saco de dormir e um cacho de bananas, porque ele era vegetariano.
Voltei a pedalar, e depois de suar muito numa subida inacabável, parei para tomar uma ducha na beira da estrada, em frente à lanchonete "Cantinho da Titia". Entrei nela para tomar um suco, e acabei fazendo amizade com toda a família, da bisavó aos netos, e eles me deixaram armar a barraca num cantinho. Uma família muito bonita, da Dona Maria e da Tia Sueli. Eles foram muito hospitaleiros e gentis.
Trecho de Mata Atlântica, entre Paraty e Ubatuba-SP.
Ubatuba-SP.
Ciclovia (de Playboy) em Ubatuba...
Galera de Guará no tradicional quiosque da praia grande, em Ubatuba.
Mais galera do Guelo.
Trecho congestionado antes de Caraguatatuba-SP. (Nessas horas a bike dá show!)
Trecho sem acostamento na Rio-Santos. Com certeza esses trechos de "acostamento zero" foram os piores até agora.
Parada no mato ao lado da estrada para respirar, no trecho de acostamento zero.
Por segurança, eu ia no meio do mato.
Um dos belos visuais da Rio-Santos.
Emir e Leonardo, cicloturistas de Curitiba. Maresias-SP.
Barra do Una, litoral norte de São Paulo.
Cachoeira na beira da Rodovia Rio-Santos, em frente a praia de Toque-Toque.
SP061, entre as balsas de Bertioga e Guarujá.
Jipão de lata, em Santos-SP.
Eu e o Rodrigão. Santos-SP.
Eu e o Fábio Brinco. Santos-SP.
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