Pico dos Marins - agosto de 2004 (ou "Como NÃO se deve entrar numa trilha")

Eu estava num sábado de inverno a noite, na casa de meu irmão, tomando umas cervejas e vinhos e comendo um founduezinho com os amigos de Guará, quando lá pela 1h da manhã o Dinho teve a idéia de fazer uma caminhada nas montanhas no dia seguinte. Eu e o Chupim logo aderimos, o Lucão ficou na dúvida e acabou dizendo não, e o resto nem cogitou. Fomos então dormir, meio "beldos", e o Chupim garantiu que iria, mesmo que fosse só eu e ele. Acordei as 8h no domingo e liguei pra ele, como tínhamos combinado, e nada, ele não atendia nem o celular nem o telefone de casa. Fui tomar café da manhã, crente que eles tinham furado. Fiquei até surpreso quando o Dinho tocou a campainha, as 8:30h.
Bom, se vamos então vamos! O Dinho foi acordar o Chupim e as 9h saímos de casa. Tinha preparado a mochila bem básica, pois previa um passeio light. Esses foram os primeiros erros de planejamento: na verdade não planejamos nada, saímos de repente, sem nenhuma preparação nem informações detalhadas sobre a trilha.
O segundo erro foi um erro básico: quando saímos não tínhamos certeza se iríamos para Itatiaia ou para os Marins, e não deixamos as pessoas em casa avisadas corretamente. Erro crasso!
Bem, rumamos pros Marins. O Chupim, sempre desastrado, deixou vazar mais da metade da água que tínhamos, mas fiquei tranquilo, pois tinha levado pílulas para purificar água (mais um erro: eu não tinha certeza se iria encontrar mais água pelo caminho, mas mesmo assim segui em frente - na verdade, como sempre, o excesso de confiança é que leva aos maiores erros).
Estacionamos o Carro no bar do careca, avisamos a dona, uma gaúcha, e saímos pela estradinha rumo ao morro do Careca.Vários grupos estavam descendo a trilha, e me informei com eles sobre o caminho. Começamos realmente a subir a trilha por volta de 11h (mais um erro: muito tarde!), seguimos as setas amarelas e os totens, mas as vezes saíamos da trilha principal, sempre perdendo um pouco de tempo. Tínhamos combinado que as 14h começaríamos a voltar, independente de onde estivessemos. Mas chegamos na base do pico as 13:40, mais ou menos, e decidimos subir. (Mais erros!).
Chegamos no cume (só o cume importa, né?), e acabamos percebendo que o que subimos foi na verdade um pico vizinho ao dos Marins, não subimos no mais alto. Mas tudo bem, tiramos fotos, ligamos prá casa e começamos a voltar. Eu já estava preocupado com o horário, mas tinha certeza que iríamos voltar numa boa. Ledo engano! Fomos seguindo os totens e as marcas, mas a trilha não era nada fácil e saíamos dela várias vezes, perdendo mais tempo. Lá pelas 16h, só com uma hora de sol, estavamos "meio" perdidos, quando vimos ao longe uma pedra que tínhamos cruzado na ida.

A pedra da ida

Oba - pensamos - uma referência conhecida. Verificamos na máquina digital as fotos da pedra, e tivemos certeza que era a mesma. Mais um erro: passamos um vale inteiro no peito e na raça, sem trilha nenhuma e cruzando uma mata encrispada e difícil, além do capim elefante alto, pra chegar junto à famigerada pedra e verificar que não era a mesma!

A maldita pedra da volta

Bom, agora estavamos mesmo f... O sol já estava quase se pondo, e tínhamos que voltar todo aquele vale encrencado. Fizemos uma coisa certa (pelo menos, né?) - mantivemos a calma. Paramos, descansamos, respiramos. Tínhamos água (que pegamos na nascente e tratamos), não estávamos com fome pois tinhamos feito um belo lanche e tinha sobrado um pouco de comida (na verdade uma banana, uma mixirica e um bolinho bebezinho).
Começamos a voltar pelo vale, e a noite foi caindo aos poucos. Demorou bastante, mas conseguimos achar a trilha novamente, com a única lanterna que eu tinha levado iluminando os totens. Maravilha! Voltou a esperança de sairmos ainda naquela noite. Tentávamos ligar prá avisar o pessoal, mas o celular não dava sinal de vida. Finalmente, lá pelas 20:30h conseguimos contato, e avisamos que estávamos perdidos nos Marins. (pelo menos agora eles não iriam nos procurar em Itatiaia!!!). Mas o sinal estava fraco e não deu prá falar mais nada.
Continuamos a trilha, mas estava ficando perigoso caminhar a noite e acabamos perdendo os totens novamente. O vento frio e o cansaço fez com que eu procurasse uma "toca" prá nos proteger do frio - o Chupim, principalmente, estava reclamando muito do frio, ele estava com um abrigo muito fino (parecia o Zagalo...).
Achei uma abrigo protegido, o "cafofo do Osama", e começei a cortar o capim seco prá forar o chão e cobri-lo, como uma cabana. Eu fiquei muito preocupado com o risco de hipotermia, então não parava de falar com eles, prá ver se estavam bem e conscientes.
A cabana ficou muito bacana, o Chupim até roncou! Enquanto eu trabalhava, um rojão estourou nas proximidades. "São eles!". Fiz sinal de luz com a lanterna, mas nada. Voltei a cortar capim, e outro rojão estourou, e dessa vez consegui ver a direção nitidamente - estava exatamente onde achavamos que era o morro do careca, a menos de 1Km em linha reta - mas tinhamos um paredão de uns 15 metros de altura a nos separar do caminho. Imaginei que eles só tinham avisado que já estavam no local mas não iriam subir, e resolvi deitar para esperar o dia raiar. Era muito mais importante evitar uma torção de pé, uma perna quebrada ou algo pior, do que dormir e caminhar com a luz do dia. Só o frio preocupava.
Achei ter ouvido um grito e levantei da "cama". Fiz sinal de luz e nada, e como eu já tinha parado e me protegido, senti um belo frio ao sair no vento. Falei que só iria levantar agora com alguém chamando meu nome! Pouco depois ouvimos um grito, mas aí sim bem próximo e nítido. "Uhú!!!" - gritamos de volta e eu pulei da cama, mas falei pros dois continuarem no cafofo. Ví uma lanterna no vale e fiz sinal com a minha. Tinham nos achado!!! O salvador foi o Marcelo, um amigo do Luciano, amigo de Guará, que conhece o Marins com a palma da mão. Ele levou 42 minutos prá nos encontrar, estávamos realmente pertinho do morro do careca.
Aí foi aguentar a gozação, porque quando saímos da trilha nossa cara era quase essa mesmo:

Nós, quando fomos resgatados!

A lição prá mim foi enorme. Acho que aprendi com isso o que 100 cursos não ensinariam. Agradeci a Deus as ótimas condições do tempo, com lua cheia e sem a mínima possíbilidade de chuva. Se tivesse chovido a história poderia ter acabado bem diferente... mas no final das contas valeu: conseguimos manter a calma e lidar com a situação, voltamos inteiros graças a Deus, às nossas famílias, amigos e ao Marcelo, e aprendi na carne que o planejamento em qualquer atividade na natureza é fundamental!!!





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