O bom humor do vô Degar

São Paulo – SP – Setembro de 2004


Eu me chamo Edgard por que meu pai e minha mãe escolheram assim, é claro, mas não foi coincidência eles terem me batizado com o mesmo nome do meu pai: esse é também o nome do meu avô. Deu prá entender? É algo parecido com os "cem anos de solidão", os nomes iguais só ajudam a complicar. E eu acho ótimo, afinal sou o Edgard 3º, sucessor do clã dos fiéis guardiães.
Eu herdei muita coisa ótima do meu pai, muita ranzinzice também, mas tem uma coisa que eu queria ter puxado do meu vô: o seu incrível bom humor! Esse gene acabou indo pro meu irmão, que tem muito do jeitão alegre e bonachão do Seu Degar, sempre rindo e tirando sarro de tudo, mesmo quando a vó Altina pega no pé dele.
Ele está sempre atento, e no menor vacilo ele dá uma tirada de sarro que deixa qualquer um sem ação que não seja rir junto com ele, daquele jeito gostoso, sacudindo o ombro e derrubando o mau humor.
Nesses últimos tempos eu fiquei de motorista pro vô e prá vó, em São Paulo, e fomos fazer umas visitinhas pros parentes. Ficamos umas 3 horas no trânsito, com sol, e não conseguimos ver ninguém que eles queriam, afinal eles são "teimosos que nem uma vaca véia" e não quiseram ligar antes de ir. Eles iam dando as indicações prá onde eu tinha que virar o carro, tudo com base nas lembranças de quando eles moravam em São Paulo, mais ou menos 50 anos atrás... era impossível, sem o nome da rua ou o número, achar um sobradinho na Vila Mariana, mesmo com um jardinzinho na frente, como a vó lembrava... Parecia que a gente estava na Barra Bonita onde eles moram... e os dois brigavam, a vó não escutava direito e o vô falava daquele jeito enrolado, uma bagunça, até que resolvemos voltar. E foi aí que senti que o humor do vô é mesmo a prova de balas... depois de ficar parado no trânsito debaixo do sol por mais de uma hora, qualquer um já estaria de saco cheio... ainda por cima ao olhar de lado, para o cemitério da Dr. Arnaldo, e ver passar um enterro. A vó apontou o enterro, falou "coitado", e começou a rezar baixinho, como é seu costume. E o vô vira prá mim, sério, como ele sempre faz na hora de soltar as suas: " é, coitado... também, esqueceu de respirar..." e deu risada! E já emendou, naquele jeitão enrolado de falar que só quem está acostumado entende: "deu o último suspiro, mas o que ele queria mesmo era uma queijadinha..." não tem jeito de não rir junto! O vô é muito brincalhão, ficar um dia inteiro ao lado dele é garantia de risada... tem 85 anos e teima em rir, é teimoso que nem uma vaca véia!
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