A MULHER SEM PECADO
de Nélson Rodrigues (Adaptado por Edgard Antunes Dias Batista)
PERSONAGENS: Olegário: Edgard, Inézia: Ciça, D. Aninha: Luciana, Umberto: Felipe,
Voz interior: Sacrini, Lídia: Márcia, Joel: Kéko, Maurício: Sertãozinho, D. Márcia: Aline
Menina: Aninha, Mulher (primeira esposa de Olegário, já falecida): Carol (de Salto)
Iluminação: Carol (de Poços)
Cenário: sala de uma casa da década de 40/50. Sofá de D. Aninha, outro sofá ou cadeira, abajur, telefone, estante com livros. prato de comida de D. Aninha; colher; 2 telegramas; cadeira de rodas; revólver (pode ser falso);
(Cenário com um fundo de cortinas cinzentas. Uma escada. Mobiliário
escasso e sóbrio. O dr. Olegário - um paralíco recente e grisalho - está
na sua cadeira de rodas. Impulsiona a cadeira de um extremo a outro do
palco, e vice-versa. Excitação contínua. Num canto da cena, d. Aninha, de
preto, sentada numa poltrona, está perpetuamente enrolando um pani-
nho. D. Aninha, mãe do dr. Olegário, é uma doida pacífica. Luz em pe-
numbra. Sentada num degrau da escada, está uma menina de dez anos,
com um vestido curto, bem acima do joelho, e sempre com os mãos cruza-
das sobre o sexo. Luz vertical sobre a criança. Esta é uma figura que só
existe na imaginação doentia do paralítico. No decorrer dos três atos, ela
aparece nos grandes momentos de crise.)
(A menina atravessa o palco e sai de cena.)
OLEGÁRIO - Inézia! Inézia!
INÉZIA (a criada, entrando,) - Pronto, doutor.
OLEGÁRIO (parando a cadeira no meio do palco) - Então? O que há ? Alguma carta? Algum telefonema?
INÉZIA - Nada, doutor, nada de novo. Só um telegrama...
OLEGÁRIO (curioso) - Um telegrama. Deixe ver.
INÉZIA (entregando o telegrama) - Se d. Lídia souber!...
OLEGÁRIO (abre o telegrama e o lê com certa ansiedade. Ainda olhos fitos no papel) - Souber, como? Só se Você disser. Você ou Umberto. Mas não caia nessa asneira!
(E abstrai-se, relendo o telegrama.)
INÉZIA - Está na hora da comida de d. Aninha.
OLEGÁRIO (distra¡do com o telegrama, custa a falar) - Está ? (noutro tom)
Então dê e... Chame Umberto.
INÉZIA - Sim, senhor.
(Inézia sai.)
UMBERTO (entra. É moço, meio sinistro, com uniforme de chofer) - Me chamou, doutor?
OLEGÁRIO (embolsando o telegrama) O que é que há? A senhora saiu, aonde foi?
UMBERTO Saiu depois do almoço. Voltou à cinco horas.
OLEGÁRIO - E Você viu o quê? (com desconfiança) Eu acho que Você me esconde as coisas! Eu pago para obter informaçäes! (noutro tom) Ela foi aonde?
UMBERTO - Foi à modista, e depois foi à Confeitaria Colombo. Lá demorou mais ou me-
nos uma hora e meia.
OLEGÁRIO (surpreso) - Uma hora e meia na Colombo! (noutro tom) Sentou-se sozinha?
UMBERTO - Não. Encontrou lá três moças. Duas vêm aqui: d. Bárbara e
d. Sandra. A outra não conheço.
(Entra Inézia.)
INÉZIA - Vou dar comida à d. Aninha. Na última vez ela não quis.
OLEGÁRIO - O quê? Não quis? (impaciente) Ah, bom, bom! Insista, que diabo!
(retomando com Umberto) - Então, como foi? Sentou-se com d. Bárbara e d. Sandra. Que mais? D. Lídia estava olhando para Alguém, para Alguém... "particularmente"?
(Aproxima-se Inézia, nervosa, com o prato.)
INÉZIA - Não adianta, doutor! Ela não quer outra vez!
OLEGÁRIO (com irritação) - Se ela não quer, o que é que eu vou fazer?
(saturado) Não precisa tentar mais. Depois eu falo com minha mulher. Viu, eu estou esperando um camarada. Quando ele chegar, mande entrar.
(Inézia sai.)
OLEGÁRIO (irritado) - Essa "zlnha" não serve nem para dar comida à mi-
nha mãe! (noutro tom, voltando-se para Umberto) Olhe aqui, Umberto:
se você arranjar uma coisa positiva - uma carta, por exemplo - eu
dou a você cinco mil cruzeiros. Sem discutir.
UMBERTO - Fique descansado, dr. Olegário. Não era preciso dinheiro...
OLEGÁRIO (impaciente) - Eu sei, eu sei... Mas dou um conto de réis. Está ouvindo?
UMBERTO - Está bem, dr. Olegário. É só?
OLEGÁRIO - É Só. Pode ir. Não, espere. Na Colombo, minha mulher não
encontrou nenhum conhecido - conhecido homem?
UMBERTO - Não. Não vi cumprimentar nenhum homem.
OLEGÁRIO - Tem reparado se olham muito para minha mulher na rua?
UMBERTO - (hesitante) O senhor sabe como é.
OLEGÁRIO - Está bem, pode ir.
(Umberto sai.)
(Entra Lídia. Lindo tipo de mulher. Muito jovem e vestida com gosto.)
LÍDIA - D. Aninha não quis a comida, meu filho? Inézia me disse!
OLEGÁRIO (com mau humor) - É. Não quis. Não quis agora, nem antes.
Você precisa dar um jeito nisso.
LÍDIA (admirada) - Eu? Mas que jeito Você quer que eu dê?
OLEGÁRIO (irônico) - Que jeito?. (noutro tom) O que eu
acho é que você, enfim, devia-se lembrar que ela é minha mãe!
LÍDIA (Tom, suplicante) Eu já disse a você, não disse, que às vezes não posso, fico nervosa? (com angústia) Ah, Olegário! Tratar uma pessoa que não compreende, que passa todo tempo enrolando um paninho... (exasperação) Aquele pano que ela enrola!.
OLEGÁRIO (sardônico) - Acho engraçado Você. "Fico nervosa." (outro
tom) Está bem. Um dia Você vai ver minha mãe morrer, aí, de inanição! Não come!
LÍDIA - Ah, uma coisa, Olegário. Por que é que você não chama outro
médico? Mamãe disse que tem um tão bom!...
OLEGÁRIO - Não interessa. Para que outro médico? já não tenho um?
LÍDIA - Mas esse que você tem - esse seu amigo - é tão esquisito! Dizem até que bebe!...
OLEGÁRIO (impaciente) - "Bebe!" E o que é que tem isso? Pois olhe. Ele é melhor do que muitos que andam por aí. E, além disso, minha filha, basta que eu tenha confiança nele.
LÍDIA Está certo, Olegário, está certo. Mas Você podia, chamar outro só pra ver! Não custa!
OLEGÁRIO (com exasperação) - É. Mas não quero! Basta um e eu estou
satisfeito com o meu!
LÍDIA (resignada) - Está bem.
OLEGÁRIO (recordando-se) - Antes que eu me esqueça: Você tem um pri-
mo Rodolfo, não tem?
LÍDIA - Tenho sim.
OLEGÁRIO - (entregando o telegrama) Ele mandou esse telegrama.
LÍDIA (queixosa) - Você sempre controlando as minhas coisas! Eu não me
incomodo. Só acho que você não tem confiança - nenhuma mesmo - em mim.
OLEGÁRIO (irônico) - Sei disso. Mas eu quero que você me explique: por
que cargas d'agua ele tem que dar satisfações a você?
LÍDIA (surpresa) - Satisfaçäes a mim?!
OLEGÁRIO (incisivo) - Satisfações a Você, sim! "Parto amanhã." O que é que você tem com isso?
LÍDIA (nervosa) - Ora, Olegário, ora! (outro tom) Sou a única parente que
ele tem no Rio! Eu, mamãe, Maurício e você.
OLEGÁRIO (desabrido) - Eu, não! Tenha paciência! Não sou parente dos
primos de minha mulher.
LÍDIA - já começou você outra vez!
OLEGÁRIO (incisivo) - Outra vez, sim! (patético) Que posso fazer senão
começar sempre?'
LÍDIA - Mas que foi que eu fiz, meu Deus? Aponte uma coisa qualquer, ao
menos isso. (enérgica) Você não tem nada, nada, contra mim. Você não
vê que isso até fica feio para você - feio?
OLEGÁRIO (irritado) - "Feio"! O que é que é "feio"? Como é imbecil a
gente dizer "fica feio"!
LÍDIA (desaftante) - Então acuse. Pronto! Acuse! Acuse, mas não me faça
sofrer à toa! Você não me acusa porque não pode. Minha vida não tem
mistérios. Todo mundo sabe o que eu faço.
OLEGÁRIO - Você me desafia, hem?
LíDlA (enérgica) - Desafio, sim!
OLEGÁRIO (sardônico) - Me desafia! Diz "minha vida não tem mistérios"!
E eu ando atrás de você o tempo todo? Sei lá pra quem você olha na rua?
Estou dentro de você para saber o que você sente, o que você sonha?
LÍDIA (nervosa e revoltada) - Você está louco, Olegário, doido! Então, até isso!
OLEGÁRIO (repetindo) - "Minha vida não tem mistérios"! Que é então o
seu passado, senão um mistério?
LÍDIA - Você fala no meu passado. Alguma vez já lhe perguntei pelo seu?
já lhe falei na sua primeira mulher!?
OLEGÁRIO - E nem fale! Nunca, ouviu? Eu não quero, não admito!
LÍDIA - já sei, Olegário, nunca mais falarei.
OLEGÁRIO - E o seu pensamento? Quem o controla? Quando um homem vê uma mulher no meio da rua, beija essa mulher em pensamento, põe nua, viola. Isso tudo num segundo, numa fração de segundo - sei lá! Mas seja como for - a imaginação do homem faz o diabo!
LÍDIA (revoltada) - Que é que tem!..
OLEGÁRIO - Se um homem é assim - qualquer homem - por que ser
diferente a mulher? Se eu posso vibrar com uma bela mulher, por que
não vibrar você com um belo homem? Mesmo que esse homem seja um transeunte?
LÍDIA - Quer dizer que eu devo... "vibrar"?!
OLEGÁRIO - Esses rapazes de praia que as mulheres vêem na rua. Você
vai-me convencer que nunca viu um que a impressionasse? Vai? Um
rapaz moreno, forte, de costas grandes, assim. (faz respectivamente o
gesto) Você nunca beijou em pensamento um homem desses? Hem?
Beijou, claro! Não tem ninguém - ninguém - tomando conta de sua imaginação!
LÍDIA - Será possível? (com ironia) Estou gostando de ver você, tão des-
critivo, tão minucioso... Um rapaz forte, moreno... (explodindo) você
não vê que isso é infame? Não desconfia? Indecente! (sardônica) - Um marido dizendo essas coisas! Sugerindo! Metendo coisas na cabeça da mulher. Eu acabo, nem sei!
INÉZIA (de passagem) - Estão batendo aí.
OLEGÁRIO (para Lídia) Depois eu falo com você.
LÍDIA - Então eu vou dar comida à d. Aninha.
OLEGÁRIO (impaciente) - já, não. Depois, depois.
(Lídia sobe a escada.)
(Entram Inézia e Joel. Joel, rapaz pobre; terno sebento; servilismo abjeto; mesuras. Inézia sai)
OLEGÁRIO (com certa impaciência) - E Entao?
JOEL - Fiz o que o senhor mandou. Falei com o Sampaio.
OLEGÁRIO (profundamente interessado) - E o que é que ele disse? Senta!
JOEL - Várias coisas, doutor.
OLEGÁRIO - Conte tudo, tudo, direitinho. Senão, já sabe. Deixo de me
interessar por Você. (advertindo) Você quer subir no escritório, não quer?
JOEL - Quero sim, doutor.
OLÉGÁRIO - E que é que o Sampaio disse? (com rancor) Ordin rio como é,
esse sujeito! Uma alma de pântano! Ele se abriu?
JOEL - Se abriu! O Sampaio falava de vez em quando.
OLEGÁRIO (severo) - E como é que da outra vez Você disse que nunca ti-
nha ouvido nada sobre a minha esposa no escritório?
JOEL (atrapalhado) - Fiquei sem jeito, doutor. Foi por isso que não contei
logo. (pausa) O Sampaio disse que sim.
OLEGÁRIO (ríspido) -, Que sim, o quê? Fale claramente.
JOEL (ainda atrapalhado) - Ele disse que d. Lídia devia ter um... amante.
OLEGÁRIO (desabrido) - Devia ter ou tem? Olha, joel, ou Você
deixa de reticências ou... Bem. Quero saber o que ele disse. Pode repetir
até os termos. Eu não me incomodo.
JOEL (mais resoluto) - Bom. Ele disse que ela tem. Foi o que ele disse. Tem!
OLEGÁRIO (sombrio) - Disse que tem! E não dísse quem era? Ele deve sa-
ber nomes, endereços, o diabo.
JOEL - Eu perguntei para ver se ele me dizia quem.
OLEGÁRIO (sombrio) - E Entao?
JOEL - Não quis dizer. Fiz força, mas não adiantou. O senhor sabe que ele fez um poema e datilografou?
OLEGÁRIO (sem compreender imediatamente) - Que história é essa?
JOEL - Uns versos mexendo com sua senhora. Bobagem, doutor!
OLEGÁRIO (exasperado, contendo-se) - Pode contar. V contando!
JOEL - Também falou do Grajaú. O Sampaio foi vizinho de sua mulher, de sua senhora, no Grajaú.
OLEGÁRIO (impaciente) - Eu sei. E foi por isso que mandei Você conversar com ele.
JOEL (um pouco relutante) - Ele me contou o apelido de sua senhora no bairro.
OLEGÁRIO (concentrando-se) - Apelido? E que apelido era esse?
JOEL (depois de uma pausa, baixo) - V-8.
OLEGÁRIO (surpreso) - V-8, por quê? Que negócio é esse de V-8?
JOEL - Foi o que Sampaio disse. Que todo mundo chamava d. Lídia assim, no Grajaú.
OLEGÁRIO (abalado) - V-8? (pausa) Mas por que V-8, ora essa?
JOEL - Chamavam d. Lídia de V-8 porque - diz o Sampaio - namorava.
Era muito namoradeira.
OLEGÁRIO (como que em monólogo) - Marido de V-8... (noutro tom) Na-
turalmente, todo o escritório sabe disso. Ou não sabe?
JOEL (sem jeito) - Sabe. E um pessoal incrível. Comenta-se, também, que a sogra do senhor era lavadeira...
VOZ INTERIOR (microfone) - V-8. V-8.
OLEGÁRIO (sombrio, voltando-se para Joel) - Agora uma coisa, Joel. Eu quero avisar a Você o seguinte: tudo o que dizem de minha mulher é uma infâmia. Minha mulher é honestíssima - est ouvindo?
JOEL - Estou. Eu sei, doutor.
OLEGÁRIO (categórico) - Portanto, não se lembre de dizer que eu mandei você saber isso ou aquilo. Se Você andar comentando, não ser negócio para Você, compreende?
JOEL - Eu sei, dr. Olegário.
OLEGÁRIO (aproximando-se) - O que é que Você tinha pedido? Passar para o lugar do Sampaio, não é?
JOEL (vacilante) - Eu estava querendo. Ou a caixa? O senhor é quem sabe.
Isso é com o senhor.
OLEGÁRIO (pensativo) - Vai para o lugar do Sampaio.
JOEL (animado) - Obrigado, muito obrigado!
OLEGÁRIO (ameaçador) - Esse negócio do poema não é invençAo sua para
. tirar o lugar do homem mais depressa?
JOEL (atarantado) - juro, doutor! Ele recitou pra mim. (levantando-se)
Entao, muito obrigado, dr. Olegário. (noutro tom) Ah, outra coisa que o
Sampaio disse: que o senhor é um... predestinado.
OLEGÁRIO - Predestinado! Como?
JOEL - Quer dizer, predestinado porque a sua primeira mulher não lhe foi
fiel. E agora a segunda também não é fiel... Disse também que d. Lídia...
OLEGÁRIO (explodindo, agressivo) - E d. Lídia o quê?... (impulsiona a ca-
deira para junto de joel, que recua alarmado) Lídia o quê?... (silêncio)
Você chegou cheio de dedos - com mil e uma reticências - e agora
diz as coisas espontaneamente! Quem mandou Você dizer isso? Falar na
minha primeira mulher?
JOEL (alarmado) - Mas o que é isso, dr. Olegário, que é isso?
OLEGÁRIO (com asco) - Você é um canalhazinho. Fazer um papel desses!
JOEL (justíficando-se) - Mas foi o senhor que mandou! Só fiz o que o senhor mandou.
OLEGÁRIO (gritando) - Não fizesse! (olha para a escada e baixa a voz) Você
era obrigado a fazer, era? (rancoroso) Bom, formid vel, chamar - na
minha cara - a minha mulher de V-8, hem?
JOEL (atarantado) - Eu só estava repetindo o que os outros...
OLEGÁRIO (com voz surda) - Os outros!... (ameaçador) Eu devia te arre-
bentar a cara! (com desprezo) Mas não farei isso. Você sairia daqui di-
zendo o diabo! Pode ir. Eu vou botar Você no lugar do Sampaio. Mas suma!
JOEL - Boa noite, doutor! Boa noite!
(joel sai, apressado. Inézia entra)
INÉZIA Telegrama para o Senhor, Doutor!
OLEGÁRIO Para mim?
(Olegário começa a ler o telegrama) (entra Lídia com a comida de D. Aninha)
LÍDIA - Vamos ver se ela come agora, Olegário.
(Lídia fica dando comida a d. Aninha, de costas para a platéia. Olegário
aproxima a cadeira de Lídia e d. Aninha.)
OLEGÁRIO (com amargura) - l,ogo que eu fiquei doente, Você não saía de
junto de mim o dia todo. Andava triste, não usava batom. Agora...
(amargo) Pinta-se. Vai. à Colombo. Todos os dias sai. Você me visita
apenas. Só vem quando chamo.
LÍDIA (nervosa) - Ora, Olegário, que é isso?
OLEGÁRIO (com irritação crescente) - Eu sei! Você est sempre arranjando
pretextos para não ficar aquí! "Vou mudar de roupa", "Preciso ver a comida", "Tenho que ir l dentro". Passa comigo cinco minutos - assim mesmo por obrigaçAo.
LÍDIA (sempre dando comida a d. Aninha) - Eu até tenho medo de vir
aqui! Você se aborrece e eu me martirizo. Você não sabe como isso é horrível!
OLEGÁRIO (com angústia) - Você diz: "Isso é horrível!" E pensa que eu
não sofro, talvez? Tenho um inferno aqui dentro.
LÍDIA (sempre de costas) - Mas eu tenho culpa, Olegário? Tenho? Você
tem raiva de mim, como se eu fosse culpada! Meu Deus! (com doçura e
tristeza) Fui eu que fiz sua doença?
(Olegário vira a cadeira e a impulsiona até a outra extremidade do palco. Lídia tem um olhar intraduzível para a cadeira. Olegário volta para junto de Lídia e d. Aninha.)
OLEGÁRIO (cruel) - V-8!
LÍDIA (virando-se, rápida) - O quê?!
OLEGÁRIO (com rancor e com voz surda) - V-8! V-8, simt Não adianta
olhar para mim dessa maneira, (com esc rnio) V-8! No Grajaú era assim
que todo o mundo chamava Você. Ou vai dizer que não?
LÍDIA (desesperada) - Você est vendo? É por isso que eu evito vir aqui!
Para não ouvir o que Você me diz! Para não agentar seus ciúmes!
OLEGÁRIO (com insistência cruel) - Mas chamavam ou não chamavam você de V-8?
LÍDIA (sem lhe dar atençAo às palavras) - Engraçado, Você não era assim!
OLEGÁRIO (obcecado) - V-8!
(Lídia vira-se para olhá -lo com absoluto desprezo. Olegário está de costas
para a platéia.)
(Lídia, em silêncio. Oiegúrio mete a mAo no bolso. Tira o telegrama. Lê para si.)
OLEGÁRIO (com intençAo) - Eu tenho aqui um telegrama que Você daria tudo para ler!
LÍDIA (cortante) - Não me interessa!
OLEGÁRIO (positivo) - Isso é o que Você pensa! (provocador) Se Você sou-
besse o que diz esse telegrama! Faça uma idéia!
LÍDIA (desabrida) - Não faço idéia nenhuma!
OLEGÁRIO (enigm tico) - Sabequem sofreu um acidente? Imagine!?
LÍDIA (vira-se para Olegário. Olha~o) -Quem?
OLEGÁRIO (com afetaçAo) - Coitado! Um desastre de automóvel - veja você! Ficou com as duas pernas esmagados!
LÍDIA (contendo-se) - Mas quem foi?
OLEGÁRIO (sardônico) - Entao não desconfiou ainda?
LÍDIA (nervosa) - Desconfiar de quê, Olegário? Diga!
OLEGÁRIO (cruel) - Quem ficou com as pernas esmagados! Foi seu amante! Ficou com as duas pernas esmagados!
(Lídia recua, de frente para Olegário, em direçAo da escada.)
LÍDIA - Não! Não! Eu não tenho amante! Nunca tive amante!
(Olegário a acompanha, na cadeira de rodas.)
OLEGÁRIO (num grito estrangulado) - Me enganando... Me traindo...
LÍDIA (com expressAo de terror) - Eu vou-me embora. Não fico mais aqui!
OLEGÁRIO (impulsionando a cadeira, enquanto Lídia recua) - Vai embora,
para onde? (como que caindo em si) Lídia! Venha c , Lídia!
LÍDIA (no segundo degrau, defrente para Olegário, obstinada) - Eu vou-me embora!
OLEGÁRIO (encostando a cadeira na escada, em pânico) - Não, Lídia! Desça! Eu menti! Desça!
LÍDIA (subindo mais um degrau, implac vel) - Não!
OLEGÁRIO (em pânico) - Foi brincadeira, Lídia! Venha c !
LÍDIA (com rancor) - Brincadeira, isso.?
OLEGÁRIO (suplicante) - Eu quis fazer uma experiência com Você, Lídia!
Inventei a história das pernas esmagados. Desça, Lídia! Desça! O tele-
grama não tem nada! É outra coisa!
(Lídia desce lentamente e senta-se no primeiro degrau.)
LÍDIA (dolorosa) - Ah, meu Deus! Dia e noite, a mesma coisa! (espremen~
do a cabeça entre as mAos) Antigamente, Você não era assim!
OLEGÁRIO (virando a cadeira) - Não era assim, como?
LlDlA (amarga) - Não era assim, não! Est assim depois que ficou doente.
Antes, preferia o escritório a mim. (excitada) E só conversava sobre negócios.
(Vem sentar-se numa cadeira.)
OLEGÁRIO - Mas você era feliz, não era?
LÍDIA (excitada) - Feliz, eu! (afirmativa) Nunca fui, meu filho! (com iro-
nia e noutro tom) Como eu poderia ser feliz abandonada? Abandonada,
sim, por um marido que chegava em casa às 2, 3 horas da manhA!
OLEGÁRIO (sem olhar para a mulher) - Diga só uma coisa. Você não teve sempre "tudo" de mim, tudo?
LÍDIA (amarga) - O que é que Você chama "tudo"? (noutro tom) Já sei.
"Tudo" para Você são móveis, casa, automóvel, cinema, dinheiro! - "Tudo"! Você se esquece que eu tive "tudo" -'como Você diz - tudo, menos marido. É o que muitas não
têm - muitas - marido!
OLEGÁRIO (irônico) - Entao Você nunca teve marido?
LÍDIA (cansada) - Olha, Olegário, eu vou ver uma coisa lá em cima.
(Lídia começa a sair para a escada)
OLEGÁRIO (baixo) - V-8!
LÍDIA - O quê?
OLEGÁRIO - V-8!
(Desesperada, Lídia sobe a escada correndo. O olhar de Oleg río acompanha Lídía. Luz em penumbra. Luz vertical sobre Olegário.)
HOMEM (microfone) - V-8! V-8!...
HOMEM (microfone) - V-8! V-8!
MULHER (microfone) - V-8! V-8!
DIFERENTES VOZES (microfone) - V-8! V-8!
(Luz volta a ser normal. Aparece Maurício. Vai colocar um livro na prateleira. Olegário o chama.)
OLEGÁRIO Maurício! Maurício!
MAURICIO Eu.
OLEGÁRIO Vem c , um instante. Você parece que tem medo de mim. Ou ódio. Tanto faz, não é, Maurício?
(Maurício senta.)
MAURICIO - Eu, medo? Mas por que, se, afinal... (muda de tom) Apanhei
o segundo volume, em vez do primeiro. Ali s, j conhecia esse livro e
vou reler. Até que esse sujeito escreve direitinho Aqui tem uma parte sobre a fidelidade...
OLEGÁRIO - Fidelidade, é? Ah, me interessa muito E que diz, aí, o cretino?
MAURICIO - Diz uma coisa muito interessante...
OLEGÁRIO (sardônico) -Vamos ver.
MAURICIO - Diz que h mulheres que não têm o direito de se conservarem fiéis.
OLEGÁRIO - Ah, sim?... Quer dizer que existem essas mulheres? Mulheres que têm obrigaçAo de trair, o dever da infidelidade? Vê se não é isso. Figuremos uma mulher que deixou de gostar do marido. O simples fato de não gostar implica um direito ou, mesmo, o dever - veja bem! - dever de adultério. Estou certo?
MAURICIO - Mais ou menos.
OLEGÁRIO - Perfeito. Outro exemplo: a mulher de um inv lido, digamos
de uma paralítico... Sim, de um paralítico. A mesma coisa, não? Eviden-
te! Em certos casos, a fidelidade é uma degradaçAo... Claro como água, não é?
MAURICIO - Depende. Varia muito.
OLEGÁRIO (subitamente feroz) - Por que varia?! Ou ela é fiel ou não é. Só.
Não h uma terceira hipótese, ouviu? Mas escuta. Acompanha meu ra-
ciocínio. Uma mulher conhece isso a que nós chamamos "êxtase amo-
roso". E pronto. J não pode olhar para outro homem. Compreende?
Cada homem é uma promessa do mesmo êxtase, talvez mais intenso ou
quem sabe se... (encarando, subitamente, Maurício) Você tem amante, Maurício?
MAURICIO (espantado) - Amante, como?
OLEGÁRIO - Quer dizer, mulher fixa, uma que esteja sempre à sua disposiçAo.
MAURICIO (levanta-se) - Assim não. Eu vario muito. Não gosto de uma
mulher só. Agora, se me casar, pode ser.
VOZ INTERIOR (microfone) - IrmAo de criaçAo!
MAURICIO - Esse negócio de mulher é complicado. ·s vezes..
OLEGÁRIO (interrompendo) - Você brincava muito com Lídia, quando era criança?
MAURICIO (sentando-se) Muito. A gente morava nos fundos de uma farmácia; tinha um tanque no quintal.
OLEGÁRIO (sombrio) - E que idade Vocês tinham?
MAURICIO - Foi dos quatro até oito, mas ou menos.
VOZ INTERIOR (microfone) Eles têm a mesma idade. Com quatro anos,
um menino e uma menina costumam até tomar banho juntos.
(Sempre que o microfone intervém, os personagens enchem as pausas com
algum movimento.)
OLEGÁRIO Você acredita em fidelidade, Maurício? Eu não. Ninguém é fiel a ninguém. Cada mulher esconde uma infidelidade passada, presente ou futura.
MAURICIO - Nem todas!
OLEGÁRIO (num berro) - Todas!
(Olegário começa a ouvir vozes. Fica atento.)
Voz (microfone) - V-8!
Voz (microfone) - V-8!
Voz (microfone) - V-8!
MAURICIO Que foi?
OLEGÁRIO (lento) Eu tenho um inferno dentro de mim. UM inferno
particular. E se tivesse também um céu particular, uma eternidade mi-
nha, só minha, com tabuleta na porta proibindo a entrada de pessoa
estranhas ao serviço? Não seria negócio? Um alto negócio?
MAURICIO Você est brincando!
OLEGÁRIO (sôfrego) - Preciso que me convenças. H essa mulher? Qu
não seja fria. A mulher fria é mil vezes pior que as outras. Pois bem
A mulher incapaz de trair, seja em sonho, pensamento,, atos ou palavras. Quem é ela?
MAURICIO - Lídia.
OLEGÁRIO - Quem?
MAURICIO - Sua mulher.
OLEGÁRIO - Minha mulher. Fiel... Tu achas que sim?
(Entra d. Márcia.)
D. MÁRCIA Preciso falar com você, Olegário, de um assunto desagradável.
OLEGÁRIO (saturado) Sei.
(Ergue-se Maurício.)
OLEGÁRIO - Depois, vamos continuar a nossa conversa.
MAURICIO (saindo) - Est certo.
OLEGÁRIO (acompanha Maurício com o olhar) - Uma flor, o seu filho. (ri,,)
Puro, uma menina. (grave) Que é que há ?
D. MÁRCIA - Olegário, Você precisa tomar uma providência. E logo, por
que, senão, j sabe. Assim é que não pode continuar. Imagina Você que ontem... É um caso sério... Eu já vinha desconfiando, h muito tempo. Como não tinha provas, deixava pas sar. E ontem, eu disse comigo mesma: H qualquer coisa, aqui, que não está me agradando. Apaguei a luz. Fechei a janela e fiquei espiando peIas venezianas. Tiro e queda!
OLEGÁRIO - Tiro e queda o quê?
D. MÁRCIA (enf tica) - Vi Inézia entrando no quarto de Umberto.
OLEGÁRIO - Inézia.
D. MÁRCIA - Francamente! Afinal, onde é que nós estamos? EstAo pen
sando que isso aqui é a casa da mAe joana?
OLEGÁRIO - Que miser vel!
D. MÁRCIA - E ela? Ela também, porque quando a mulher não quer,
homem não arranja nada! Isso é um desaforo!
OLEGÁRIO - Vou despedir esse cachorro. Bot -lo para fora daqui a pontapé.
D. MÁRCIA - Ora veja!
(Entra Umberto, mais petulante do que nunca.)
UMBERTO - Dr. Olegário!
(Ergue-se d. M rcia.)
D. MÁRCIA Com licença, Oleg n'o!
UMBERTO (inclina-se, numa mesura caricatural) Madame! (pigarreia)
Pelo que vejo, entrei'aqui, na horinha H.
OLEGÁRIO - Estive sabendo de umas coisas a seu respeito...
UMBERTO - De mim?...
OLEGÁRIO - E não quero conversa. De maneira que Você vai sair desta
casa -imediatamente. Antes que eu chame a polícia!
UMBERTO - Sairei. Perfeitamente. Mas...
OLEGÁRIO - Canalha!
UMBERTO (cínico) - Posso falar?
OLEGÁRIO - Rua! Rua!
UMBERTO - Primeiro, dr. Olegário, o senhor ainda me deve... Uns dias,
creio... E, além disso...
OLEGÁRIO - Nem uma palavra!
UMBERTO - Eu tenho direito de saber. Sou expulso. Est certo. Mas por
quê? H um motivo. Fiz alguma coisa?
OLEGÁRIO - Você e Inézia... Na minha casa. EstAo pensando o quê?... Vi-
ram quando ela entrava...
UMBERTO - Eu e Inézia? (ri) Quer dizer que o senhor pensa que ...?
OLEGÁRIO - Vou fazer suas contas e não @ me apareça nunca mais ...
UMBERTO - E se eu lhe provar...
OLEGÁRIO - Cínico!
UMBERTO -... Mas se eu lhe provar que, entre mim e Inézia, não h , não houve absolutamente nada, hem? Eu posso provar, dr. Olegário. Provo e convenço o senhor!
OLEGÁRIO - Mas Inézia entrou ou não entrou?
UMBERTO - Bem. O senhor disse que viram... Entao, entrou... É claro! Se viram, entrou...
OLEGÁRIO - Basta!
UMBERTO (cínico) - Mas não houve nada! Juro! Dou minha palavra de
honra... Não houve e... (pausa. Encara Olegário) ... nem podia haver.
OLEGÁRIO (arquejante, espantado) -Corno?.. E por que não podia haver?
UMBERTO (ri, com selvagem alegria) - O senhor j imaginou?... Uma mu-
lher entra no quarto de um jovem. Muito bem. É criada, mas não faz
mal... EstAo sós. Encerrados num quarto. A moça vem como uma esfo-
meada. Ela se oferece. Não fala, mas é como se dissesse: "Toma! Tudo é teu!"
OLEGÁRIO - Imagino! Imagino!
(Impulsiona a cadeira de um lado para outro.)
UMBERTO - E, no entanto, não pode acontecer nada, absolutamente
nada. E, de fato, não aconteceu. Nada. (ri) Se o senhor visse o rosto as,"
sombrado de Inézia. Correu para fora do quarto, como uma doida.
OLEGÁRIO (quase sem voz) - Mas por quê? (com progressiva exaltação)
Quero saber por quê!
UMBERTO (baixo) - Quer?
OLEGÁRIO - Quero!
UMBERTO - Muito simples. Simplíssimo. Um acidente de meninice, apenas.
OLEGÁRIO E o menino eras tu?
UMBERTO Eu. Mas não foi acidente. Foi... uma vingança. Alguém quis
se vingar de meu pai na pessoa do fdho único, que era eu... (ri, feroz-
mente) Eu tomava banho no rio, garoto ainda ... E o inimigo de meu pai.
Uma mutilaçAo tAo r pida que eu nem senti ... Corri, gritando... Atr s
de mim, ficava o rastro de sangue...
OLEGÁRIO (rindo, também) - Engordaste, Entao, não foi? E passaste a
olhar os outros, de baixo para cima? Tinhas vergonha _de tudo, não tinhas?
UMBERTO - Não sou como os outros... E Inézia ou outra qualquer...
OLEGÁRIO - Qualquer uma?
UMBERTO Sim. Qualquer uma podia entrar mil vezes no meu quarto.
OLEGÁRIO (caindo em si) - Desculpe, Umberto, mas é que eu... Estou es-
gotado. Esgotadíssimo. ·s vezes, não me controlo. De qualquer maneí-
rA, Você me deu uma grande notícia. Porque, imagine Você, eu cheguei a
pensar, quando me disseram que Você e Inézia... Pois eu tive medo.
(Entra Maurício.)
UMBERTO - Com licença.
(Sai Umberto.)
MAURICIO Quer que chame Lídia, agora?
OLEGÁRIO - Não. (baixando a voz) Ontem eu a ouvi.
MAURICIO (admirado) - Ouviu quem?
OLEGÁRIO (misterioso) - Ela.
MAURICIO (espantadíssimo) - Ela? Mas ela, quem, Olegário?
OLEGÁRIO (vago) - Minha mulher, minha primeira mulher.
MAURICIO (assombrado) - Sua primeira mulher? Mas ela morreu! Que negócio é esse?
OLEGÁRIO (misterioso, aproximando-se de Maurício) - Pois é, a minha
primeira mulher. Não aparece - corporalmente, mas a voz é dela.
(Olegário vai e volta com a cadeira. Maurício olha Olegário com espanto.)
OLEGÁRIO - Enquanto for só a voz - bem. (com excitaçAo) Mas quando,
for uma apariçAo - fisica - como viria ela?
VOZ INTERIOR (microfone) (espantado) - Estou enlouquecendo
OLEGÁRIO (sem lhe dar atençAo) - Morreu h tanto tempo, que viria cheia
de bichinhos - bichinhos saindo de todos os lugares.
MAURÍCIO (sentando-se) - Mas Você'est doente! Isso é esgotamento! Aposto como Você tem febre!
OLEGÁRIO (aproximando-se) Maurício, eu sei o que Você est pensando. (Olham-se.)
MAURÍCIO (aliviado) - Não é que eu pensei mesmo?
OLEGÁRIO (irritado) - Eu sei que estou doente. Tenho consciência da minha doença.
VOZ INTERIOR (micrfone) - E se eu enlouquecesse agora?
MAURÍCIO - Mas Você não pensa que é mesmo a sua primeira esposa que
fala com Você?
OLEGÁRIO (grave) - Não. (com exasperaçAo) Sei que é uma voz interior.
Uma voz que,sai das profundczas do meu inferno. Também não estou tão ruim assim.
MAURICIO - Quer dizer que não é espiritismo?
OLEGÁRIO (impaciente) - Que espiritismo! (noutro tom) ·s vezes, estou com outra pessoa, e começo a ouvi-Ia. Ouço outras coisas. (com angústia) Olha aí, está ouvindo?
(Ouve-se um berro tremendo.)
MAURÍCIO (espantado) - O quê?
OLEGÁRIO - UM grito. Você não podia ouvir, nem ninguém - só eu.
Outro. Um berro de gente assassinada.
(Novo berro de estrangulado. Maurício se mexe inquieto.)
MAURICIO - Você ouve mesmo? Sério?
(Olegário agitado. Aparece outra vez a menina.)
OLEGÁRIO - E se eu lhe contar que também tenho visäes? Vejo Lídia com dez anos, vestido curtinho, as coxinhas aparecendo, bem feitas, (gaguejando) lindas. Você sabe que eu morei perto de Vocês, quando Lídia era criança; e uma vez a vi, assim mesmo, vestidinha assim. E essa imagem que me aparece, que eu vejo... (surdamente) Lídia aos dez anos...
MAURICIO - Sério?
OLEGÁRIO (es antado) - Ali. Est ali agora. (noutro tom) Também vejo homens descendo e Lídia, no alto da escada, dando adeus, de combinaçAo. Ouço ela dizer: "Mon cherri, mon cherri"...
MULHER (microfone) - Mon cherri, mon cherri, mon cherri, mon cherri. (tom variado: doce, apaixonado, sensual)
MAURICIO - Assim Você acaba louco, Olegário.
OLEGÁRIO (com sombria exasperaçAo) - Você acha? (excitaçAo progressiva) Isso é o que voce quer, deseja! Vocês não me enganam. (arqueja, e mudando de tom) Espera.
VOZ DE MULHER - V-8... V-8... V-8...
OLEGÁRIO (perturbado) - É ela outra vez.
(Entra sob a luz vertical uma mulher vestida de grená)
MULHER (.sardônica) - Larga essa cadeira.
OLEGÁRIO (sem olhar para ela) - Estou bem assim... (repete, surdamente) V-8... V-8...
(Aperta 'a cabeça entre as mAos.)
MULHER - Ficou zangado porque falei na cadeira? Só por isso? Que é que tem?
OLEGÁRIO (irritado) - Não faz mal. Pensei em dizer um desaforo, mas desisti. Para quê? não interessa! Você não existe. Viu como eu tenho consciência do meu delírio? E isso prova apenas...
(Sai Maurício, espantado. Olegário nem nota.)
MULHER - Prova o quê?
OLEGÁRIO (triunfante) -... prova que, apesar de tudo, não estou louco de todo.
MULHER - Está vaidoso - porque raciocina com lógica.
OLEGÁRIO - Talvez. Só uma coisa me intriga: por que ouço a voz de minha primeira mulher e não outra voz qualquer?
MULHER - Você queria talvez ouvir a voz de um jogador de futebol - por
exemplo. Enquanto Você não acreditar na minha eternidade...
OLEGÁRIO (cruel) - A sua eternidade não impediu que outra viesse para
seu lugar, ocupasse o seu quarto... dormisse na sua cama!... (sem tran-
siçAo, saturado) E a cinta, meu Deus? Ela tirou a cinta! (baixo) Sem
cinta, est mais próxima dó pecado.
MULHER - A mulher de um doente irremedi vel é assediada a todo mo-
mento e em toda a parte. Oleg riä, sua doença é um convite,,uma su-
gestAo, uma autorizaçAo. Esse seu falso cunhado...
OLEGÁRIO - Maurício...
MULHER (aproximando-se) - Um homem que passa todo o tempo fecha-
do num quarto, acaba pensando em mulheres, muitas mulheres; ou,
Entao, pensando numa única mulher. Ele est num quarto pegado ao de Lídia, Olegário!
OLEGÁRIO (sombrio) - Eu expulso Maurício daqui. Expulso. E se ela se opuser...
MULHER - Os dois brincaram juntos em criança! Acontecem coisas terrí-
veis entre meninos e meninas. Você pode imaginar o quê! As crianças
têm curiosidade, instintos incríveis!
MULHER - É impossível que Maurício não tenha visto ainda LÍDIA entrar
no banheiro de roupAo. Outro dia, Lídia estava de roupAo, o roupAo
abriu assim... (faz um gesto na altura do peito)
(Olegário aperta a cabeça entre as mAos.)
LOUCURA: O som do Prodigy começa a tocar, para arrebentar quando Olegário colocar as mãos na cabeça. As luzes então piscam freneticamente, como numa danceteria, e a loucura de Olegário se instala: começam a passar os personagens, vestidos como malucos e falando coisas como V-8, vagabunda, cínica:
O próprio Olegário aparece com um chapéu de touro;
D. Márcia de bailarina, dando um salto de balé;
Maurício passa fazendo rolamento;
Joel passa de terno e com um gorro vermelho, pulando numa perna só igual o saci;
Umberto passa com um pênis na mão, andando atrás da menina;
Inézia passa com a vassoura matando uma barata imaginária e dizendo: Morre V-8!;
A luz se apaga de repente, e o som para. Olegário está no centro da sala, sem os chifres, como que dormindo.
(Entra Inézia.)
INÉZIA - O homem da injeçAo chegou.
OLEGÁRIO -(acordando) Manda entrar para a saleta.
(Sai Inézla. Entra Lídia.)
LÍDIA - Meu anjo, o farmacêutico está aí.
OLEGÁRIO - já sei.
LÍDIA - E outra coisa. Você despediu Umberto?
OLEGÁRIO - Não.
LÍDIA (surpresa) - Nem vai despedir?
OLEGÁRIO (sardônico) - Por que esta conspiraçAo universal contra o rapaz?
LÍDIA - Mas como? Afinal, mamAe viu!
OLEGÁRIO - O quê?
LÍDIA - Ora, meu filho!
OLEGÁRIO - Bem. J que Vocês insistem, vou dar minha opiniAo, a respeito. É a seguinte: Sua mAe devia cuidar dos próprios pecados e deixar os dos outros.
LÍDIA - Mas Você acha justo, Olegário?
OLEGÁRIO (sórdido) - Quem sabe?
LÍDIA - É uma situaçAo muito desagrad vel!
OLEGÁRIO - Quem devia ser despedida era Inézia. E vamos mudar de assunto, porque eu estou satisfeito com Umberto e pronto.
LÍDIA - Arranjei uma agulha nova, de platina. Vamos?
OLEGÁRIO - Eu vou, mas Você fica. Você sabe que eu não gosto que você me veja tomando injeçAo.
(Olegário vai saindo, lentamente.)
(Sai Olegário acompanhado pela mulher e a menina. Lídia fica de pé, no
meio da cena, amargurada. Umberto aparece. Sem que ela o pressinta, ele
se aproxima, sem rumor.)
UMBERTO - D. Lídia!
(Sobressalto de Lídia. Vira-se, assustada. Umberto segura-a e beija-a. Lídia esperneia.)
LÍDIA (soltando-se) - Miserável, bandido!
(Passa as costas da mão na boca, numa expressAo de supremo asco.)
UMBERTO - Bandido, porque beijei a senhora?
LÍDIA - Não fica nem mais um minuto nesta casa. Saia já!
(Olha a escada.)
UMBERTO - Não adianta olhar para a escada. A senhora não foge. Se correr irei atrás.
(Cobre a passagem para a escada.)
LÍDIA - Cínico!
UMBERTO - Só sai daqui quando eu quiser, quando eu deixar!
LÍDIA - Vou dizer ao meu marido...
(Faz mençAo de correr, mas desiste.)
UMBERTO - Viu? Não adianta. Fique onde est , quietinha!
LÍDIA - Deixa eu, passar! Indigno!
UMBERTO - Diz isso e quando acaba - gosta de mim!
LÍDIA - Eu?
UMBERTO - As mulheres sAo engraçadíssimas!
LÍDIA - Está doido!
UMBERTO - Doido coisa nenhuma... Você...
LÍDIA - Não me chame de você!
UMBERTO - Chamo, sim... Você, ouviu? Você... Você gosta de mim e sabe disso.
LÍDIA - Deixa eu passar ou eu grito agora mesmo!
UMBERTO - Grita? Tem essa coragem? Pois, Entao, grita. Quero ver e duvido.
LÍDIA (baixo) - Grito.
UMBERTO - Grita e está falando baixo. Fale alto!
LÍDIA - Falo sim!
UMBERTO - E o grito?
LÍDIA (baixo e espantada) - O grito!
UMBERTO - Isso é para Você não andar me provocando!
LÍDIA - Eu provoquei Você? Est completamente doido
UMBERTO - Doido! Diz isso agora. Sabe o sonho que tive ontem?
LÍDIA - Eu quero passar!
UMBERTO - Primeiro, ouça. Sonhei,que Você estava batendo, no seu marido, com um cinto. Um cint(} de fivela. Primeiro, dava aqui nos rins, com toda a força. Depois, cismou de bater nos olhos. Com a fivela. Nos olhos do seu marido.
LÍDIA (parece fascinada) - Só isso?
UMBERTO - Não tive nunca um sonho que me impressionasse tanto. Você estava hedionda!
E, depois, os olhos do seu marido sangraram!
(Umberto avança. Lídia contorna a cadeira de d. Aninha.)
LÍDIA - Fique onde está!
UMBERTO (aproximando-se) - Não se mexa. Assim, quieta.
LÍDIA (num lamento) - Não quero.
UMBERTO - Quer, sim. Quer agora mais do que nunca. (grave e triste) Agora que sabe quem sou eu. (baixo) - Gosta de mim?
(Estão quase boca com boca.)
LÍDIA (baixo e maravilhada) - Não sei, não sei!
UMBERTO Cínica! (aperta entre as mãos o rosto de Lídia) Como é bom te chamar de cínica! (baixa a voz. Acariciante, trincando as palavras) Deixa eu te dizer um nome feio, baixinho, no ouvido? Um insulto?
LÍDIA (com volúpia) - Não!
UMBERTO - É uma palavra só. Escuta...
(Diz a palavra inefável. Lídia crispa-se.)
UMBERTO - Gostou, não gostou?
LlDlA (com volúpia e dor) - Não repita...
UMBERTO - Me ama?
LÍDIA - Tenho medo! Não sei, tenho medo!
(Umberto toma Lídia nos braços. Ela não resiste. A sua cabeça pende.)
UMBERTO (baixo) - É toda minha?
LÍDIA (com angústia) - Oh, não ... não posso! Não contarei a meu marido, mas não posso. Já me beijou ... não faça mais nada!
UMBERTO (baixo e acariciante) - O que fiz ainda não foi nada. Quase nada. Foi muito pouco. Quero tudo.
(Ouve-se um barulho.)
LÍDIA - Meu marido!
(Entra Olegário. Experimenta cordial surpresa, ante a presença de Umberto.)
OLEGÁRIO Você, Umberto?
UMBERTO - Dr. Olegário.
LÍDIA (com relativa perturbaçAo) Umberto veio-me pedir para ter folga amanha.
OLEGÁRIO - Você est ficando um farrista tremendo, hem, Umberto?
UMBERTO - O negócio é o seguinte: tenho uma pessoa da família doente. E queria ver se era possível.
OLEGÁRIO (rindo) - Conversa fiada. Na sua idade, com a sua saúde, não escapa nem rato. É ou não é?
UMBERTO - Também não é assim.
OLEGÁRIO - Pode ir, Umberto. Aproveita, rapaz.
UMBERTO - Obrigado e boa noite. Boa noite, d. Lídia.
(Sai Umberto.)
LÍDIA - Achei uma coisa tAo desagrad vel, meu filho, Você falar assim com Umberto, na minha presença.. Você usou, francamente, um tom de deboche... Afinal...
OLEGÁRIO - E que mais?
LÍDIA - Só.
OLEGÁRIO (ri, sordidamente) - Umberto até que é uma figura. Bons dentes, gengivas sadias. Lídia!
LÍDIA (triste) - Eu.
OLEGÁRIO - Se eu pedisse um beijo, Você daria?
LÍDIA - Um beijo?
OLEGÁRIO (sôfrego) - Daria?
LÍDIA - Criança! (outro tom) Daria, sim! Natural!
OLEGÁRIO (anelante) - Mas na boca?
LÍDIA (brevíssima hesitaçAo) - Na boca, sim. (frívola) Por que não?
OLEGÁRIO - Ora, por quê! Porque sim! E por que não seria na boca?
LÍDIA - Por nada. Achei interessante.
OLEGÁRIO (sardônico) - Realmente. Muito interessante.
LÍDIA (com irritação) - Ora, Olegário! -
OLEGÁRIO (veemente) - Extraordin rio um marido querer ser beijado na boca?
LÍDIA - Meu filho!
OLEGÁRIO - Mas se Você não quer, paciência, não é obrigada. Não estou pedindo pelo amor de Deus, não senhora! (outro tom) Você sabe há quanto tempo não me beija?
LÍDIA (com ironia) - Você tomou nota?
OLEGÁRIO - Sim! Tomei! E sei, muito bem, o'que isso significa!
LÍDIA E o beijo, quer?
OLEGÁRIO (sôfrego) - Quero, meu amor!
(Lídia inclinasse e beija-o rapidamente na boca.),
OLEGÁRIO (exasperado) É isso. É esse o beijo que você tem para mim? Por que Você não me beija como antigamente?
LÍDIA (nervosa) - Mas como? "Antigamente" como?
OLEGÁRIO - Não se faça de inocente!
LÍDIA (contendo-se) - Você não me pediu um beijo? E eu não dei?
OLEGÁRIO - Deu, deu. Mas eu queria um beijo - Você sabe como. (amargurado) Mas beijar um homem como eu deve ser, quase, uma infâmia. (começa a rir, abjetamente)
LÍDIA (chorando) - E por que você não me trata melhor? (com veemência) Eu queria que você, ao, menos, tivesse pena de mim!
OLEGÁRIO (espantado) - Pena? Você quer me convencer que vai-se resignar a ser eterna-
mente a esposa de um paralítico? Sem procurar um substituto?
LÍDIA (atônita) - Compreendi agora! (com desesperada ironia) Você acha
que um substituto é indispens vel? (Indignada) Você devia ter era mais dignidade!
(Lídia vai saindo, rápido, chorando)
OLEGÁRIO (veemente) - O que eu não sou é idiota!
(Aparece d. M rcia.)
D. MÁRCIA (Melíflua) A respeito daquele caso,-Oleg rlo.
OLEGÁRIO (atônito) - Que caso?
D. MÁRCIA - Do Umberto. Estive pensando... E sabe de uma coisa?
OLEGÁRIO - Dispenso os seus pontos de vista. E pare com esse negócio de me chamar Oleg rio. Antigamente, a senhora só me chamava de "dr. Ole-g rio". Agora, não. Agora é Olegário.
D. MÁRCIA - Mas escuta aqui!
OLEGÁRIO É isso mesmo!
D. MÁRCIA - Que negócio é esse? Você pensa que faz de mim gato e sapato? Onde é que nós estamos?
OLEGÁRIO - Na minha casa, mando eu! Sua lavadeira!
D. MÁRCIA - Você é que é um cretino muito grande!
OLEGÁRIO - Rua!
D. MÁRCIA - Mas primeiro vai ouvir. Minha filha é porque é uma boba. Senão, j tinha dado o fora. Palhação!
OLEGÁRIO - Umberto fica, sua lavadeira! Você é quem est despedida!
D. MÁRCIA - Lavadeira é a mAe!
OLEGÁRIO - Não me ponha os pés aqui, nunca!
(Sai d. Márcia. Entra Umberto.)
UMBERTO Dr. Olegário, eu quero minhas contas. Eu vou me embora.
OLEGÁRIO - Mas por quê? Não est satisfeito aqui?
UMBERTO - Estou muito. O senhor e d. Lídia sempre foram bons comigo.
OLEGÁRIO - E Entao?
UMBERTO - Tenho que ir de vez, dr. Olegário. Minha mAe est passando mal.
OLEGÁRIO - Ora veja!
UMBERTO - Pois é. Caiu da escada. É cega. Foi descer e rolou lá de cima. Caso seríssimo. Fraturou a bacia. E na idade de minha mAe é o diabo.
OLEGÁRIO - Mas Você mesmo não disse, uma vez, que sua mãe tinha morrido?
UMBERTO Eu não, dr. Olegário! Pois se ela caiu outro dia da escada, não lhe parece?
(cínico,) - De forma que eu queria ir'hoje mesmo...
OLEGÁRIO - Olha. Aquela história de espiar o que d. Lídia fazia aquilo que eu mandei -,foi brincadeira. Mas j sabe. Não conte nada a ninguém. Nunca.
UMBERTO - Claro. De mim, ninguém saber nada. Deus me livre. E agora vou falar com d. Lídia. (ri) Posso, não posso? Sou o único homem no mundo que... Não é mesmo, dr. Olegário?
(Riem os dois sordidamente.)
UMBERTO - Poderia espiar o banho de qualquer mulher...
(Sério Umberto. Ri Olegário. Olegúrio corta o riso.)
OLEGÁRIO - Vá para o diabo que o carregue!
(Saí Umberto. ProstraçAo de Olegário Aparece Maurício ressentido.)
MAURÍCIO - Que foi que Você fez com mamAe, que ela est chorando?
OLEGÁRIO (melífluo) - Nada. Não fiz nada com sua mAe. Não a chamei de lavadeira, nem disse que ela vendeu a filha. Ali s, sou a favor das mAes mercen rias que até tratam muito bem as filhas, engordam, põem num colégio etc e tal. Um alto negócio, certas mAes!
MAURICIO - Isso é uma indignidade!
OLEGÁRIO - Sua mAe que não se faça de tola comigo. É ela quem anda dando maus conselhos à Lídia... Desencaminhando minha mulher...
MAURICIO - Cale essa boca, senão...
OLEGÁRIO - Você faz o quê?
MAURICIO - Se Você não fosse um paralítico!
(Maurício vira as costas para Olegário. Caminha para a escada.)
OLEGÁRIO (gritando) - Olha!
MAURICIO (vira-se assombrado) - Olegário!
OLEGÁRIO - Não sou paralítico, nunca fui paralítico!
(Segura Maurício e subjuga-o.)
MAURICIO - Não pode ser!
OLEGÁRIO - Agora me mate, me estrangule, ande!
MAURICIO (aterrado) - Nunca foi paralítico... Entao esses sete meses na cadeira...
OLEGÁRIO - Farsa, simulaçAo... Um médico, bêbado, irrespons vel, que me devia dinheiro, disse a todo mundo - inclusive à minha mulher que eu era um caso perdido... Que não ficaria bom nunca... Compreendeu?
MAURICIO - Mas por quê? para quê?
OLEGÁRIO - Foi uma experiência... Uma experiência que eu fiz com Lídia... Precisava saber, ter uma certeza absoluta, mortal Agora sei, agora tenho a certeza... Há, no mundo, uma mulher fiel... É a minha... E perdAo, Maurício... Chama a tua mAe... Ela que me perdoe também... Vou-me ajoelhar diante de Lídia... (exaltado) Milhões de homens sAo traídos... Poucos maridos podem dizer: "Minha mulher"... eu posso dizer - minha! (riso soluçante) Minha mulher (corta o riso, senta-se na cadeira) (grita) Lídia! Lídia!
(Entra Inézia. Apanha a manta e cobre as pernas de Olegário.)
INÉZIA - Doutor.
OLEGÁRIO - Chame minha mulher. Minha!
INÉZIA - Saiu, dr. Olegário. D. Lídia saiu e mandou entregar isso aqui esta carta - ao senhor.
(Sai Inézla. Olegário abre a carta. Começa a ler.)
VOZ DE LÍDIA (microfone) - Olegário! Parto com Umberto. Nunca mais voltarei. Não quero seu perdAo. Adeus. Lídia. Nunca mais voltarei. Nunca mais...
(Olegário continua de olhos fixos na,carta.)
MAURICIO - Que foi?
OLEGÁRIO - Nada. Coisa sem importância.
VOZ DE LÍDIA (microfone) - Parto com Umberto. Não quero seu perdAo. Adeus. Lídia.
OLEGÁRIO - Olha, Maurício. Você vai-me dar licença. Estou um pouco cansado.
(Maurício sai, olhando espantado para Olegário. Só, Olegário vai à gaveta da secretária. Apanha um revólver. Abre o tambor, olha-o, fecha-o.)
VOZ DE LÍDIA (microfone, em crescendo) - Parto com Umberto. Lídía. Não quero seu perdAo. Parto com Umberto.
(Olegário aproxima-se de d. Aninha. Esta continua, na sua atitude, enrolando o eterno paninho. Olegário encosta o revólver na fronte.)
VOZ DE LÍDIA (microfone) - Adeus. Não quero seu perdAo. Lídia. Parto com Umberto. Umberto. Umberto. Umberto.
(As luzes vão se apagando lentas até o blackout, ouve-se então o som, alto, de um tiro. A cortina fecha-se e começa a tocar a música do Vinícius. As luzes da platéia se acendem, com a música tocando)
FIM
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