Edgard
Porto das Barcas – Piauí – Agosto de 2002
Chico duro tinha sido um vitorioso. Ele lutou a vida inteira, trabalhou muito, de sol a sol. Começou com uma bicicleta velha e sem freios, entregando jornais. No dia do seu enterro tinha 3 carros, e sua paixão era a pickup importada, que ele não deixava nem os filhos porem a mão.
Chico Duro batalhou e conseguiu. Tinha carros, casas, um comércio próspero... Um sonho que ele não tinha realizado no dia do seu enterro era o de viajar o mundo no seu próprio barco. Ele até tinha um barco, uma bela e veloz lancha com dois motores a diesel, que fazia inveja a todos os seus amigos. Nela ele as vezes até levava os filhos, mas ele gostava mesmo era de ir com os amigos, eles inventavam desculpas para as esposas, de que iam pescar – só a turma – e enchiam o barco de garotas de programa – os “esquemas”... Depois era só passar na peixaria, comprar uns belos cavalas, serras, xaréus, e um ou outro camurupim bem grande – o recorde tinha sido um de 80 Kgs, mais alto até que o Chico Duro. Mas ele nunca foi muito longe com a lancha.
Chico Duro Tinha esse apelido, que ele achava injusto. No começo chamavam ele, Francisco de Assis Silva, de Chico Pão-Duro. Poxa, mas ele tinha de economizar, pensava. Com o tempo e a preguiça das pessoas ficou só Chico Duro, e ele acabou gostando, passava uma idéia de macheza...
Chico Duro ia levando sua próspera vida, mas de repente uma estranha e fulminante febre o acometeu, e nem chamando o médico da capital conseguiram reavivá-lo. Ficou lá, com todos os músculos rígidos, todo duro. Os parentes providenciaram um grande enterro, pomposo, e os amigos cochichavam baixinho que foi só o pão duro bater as botas prá família começar a torrar a grana do falecido.
Mas o detalhe nisso tudo é que o Chico Duro não estava morto não, ele estava todo imóvel, durinho da silva, mas o que o acometia era aquela rara e estranha síncope na qual a pessoa tem todos os seus músculos travados - olhos, pernas, braços, até o coração. Com isso os batimentos cardíacos quase somem, e todos os sinais são os de uma pessoa morta. Mas a pessoa pode continuar com alguma pequena atividade, pode escutar, o cérebro não para... e Chico Duro ouvia tudo o que acontecia a sua volta, seus amigos falando mal dele, até o que sua esposa confessou para o “falecido”, de que era amante do Zé Prego, seu melhor amigo... E ouvia tudo sem poder piscar o olho, falar nada, nem mexer o dedinho.
Com isso fecharam o caixão – um caixão grande, lindo – e a família, atendendo um desejo que o Chico tinha deixado no testamento – era um homem prevenido – enterrou junto com ele tudo o que representasse seus maiores bens: estava com sua melhor roupa, seu colar de ouro, a chave da pickup, da lancha, da casa de praia, seu celular e até seu laptop pessoal, que Chico gostava de ostentar mesmo sem saber quase nada de informática. E confome a terra começava a ser jogada em cima do caixão o desespero do Chico Duro aumentava. Ele queria gritar, mas um estranho torpor tomava conta de seu corpo. E então veio o silêncio e a escuridão total. E o chico desesperado não sabia quanto tempo ele ainda teria de oxigênio dentro do caixão antes de morrer – dessa vez de verdade.
E começou a pensar na sua vida e xingou tudo e todos, e se arrependeu de ter deixado tudo para a vadia de sua esposa, os preguiçosos dos filhos... xingou seus amigos falsos, especialmente o Zé Prego, aquele traidor. E se arrependeu de nunca ter largado tudo e ido dar a volta ao mundo de barco. E nessa raiva toda Chico duro de repente amoleceu, saiu do seu transe muscular, e recuperou todos os movimentos. A primeira coisa que fez foi soltar um grito de socorro que chegou a fazer vibrar a cruz do túmulo, mas que ninguém podia ouvir. Ele se debateu naquele aperto, usou toda a sua força para tentar abrir a tampa do caixão, mas ele nem se mexeu. Nisso Chico Duro sentiu umas coisas dentro do seu bolso: algumas chaves e seu celular!
“Estou salvo!”, pensou, e tentou recuperar a calma. Procurou o número do celular da mulher na memória e ligou.... tocou, tocou, “atende, desgraçada!”....e deu caixa postal! Filhadaputa, esbravejou! “Prá quem vou ligar agora?”, e decidiu ligar pro Zé Prego. “Primeiro eu me safo dessa, depois acerto as contas com o safado...”. Enquanto ele procurava o número do Zezim na memória um bip soou, forte, profundo, rasgando aquele silêncio mortal como uma faca afiada: “low battery”!!!
Seu coração disparou novamente. Ele discou o número – “Atende Zezim, seu filhodaputa!”. Tocou, tocou, tocou, e deu caixa postal de novo!
“PUTAQUEPARIU!!!” E então a tela do celular se apagou, sem bateria, voltando tudo a ficar escuro como o inferno...
Naquela noite, no melhor motel da cidade, Dona Linda e Zé Prego tiveram o maior susto de suas vidas, quando eles voltaram ao quarto depois de um belo banho na hidromassagem e olharam seus celulares: em cada um deles tinha uma ligação não atendida, do falecido Chico Duro!!!
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