O Casamento do meu irmão

Edgard
Guaratinguetá / maio de 2004


Desde criança, quando me perguntavam se eu ia casar, quantos filhos eu teria, essas coisas malas que toda tia pergunta ao sobrinho, eu sempre respondia que queria ter 5 filhos, no mínimo. Não sei porque cargas d`água, mas acho que porque gostava de ter muitos primos, eu invejava meus primos filhos da tia Dodói, com 4 irmãos cada. Depois de crescer um pouco, e ao cair na realidade do mundo, meu número passou para 2, que é quanto somos em casa. Afinal 2 filhos é muito mais fácil criar ($$$) hoje em dia. E eu e o Dinão, meu irmão, sempre nos demos extremamente bem. Sempre falei que meu melhor amigo, disparado, é o Dino. Sempre foi, afinal temos só 2 anos de diferença, hoje eu tenho 29 e ele 27. Então, quando éramos moleques, sempre brincávamos juntos, éramos da mesma turma, e se brigávamos com os moleques na rua um ia sempre ajudar o outro.
Eu não gostava muito era quando minha mãe me mandava ir procurar o Dino, que sempre foi boa vida e se esquecia de tudo e ia brincar na casa de alguém sem avisar. E toca o irmão mais velho aqui a procurar de casa em casa, na vizinhança toda, até achar o mala tranqu1lão em alguma casa da redondeza. Mas eu também não era santo não, reconheço. Uma vez, quando a gente era ainda bem pequeno, o Dino devia ter uns 2 ou 3 anos, estávamos lendo no quarto, antes de dormir. Cada um tinha uma luminária no criado mudo, entre as duas camas. Quando eu fui desligar minha luminária, percebi que a lâmpada, estava pelando de quente. Então eu provoquei o Dinão: "Duvido que você beije a lâmpada!" E não é que o cabeção meteu o beição na lâmpada fervente, ficando com a boca toda estourada?
Mas éramos companheiros inseparáveis, sempre. Na escola cada um tinha a sua sala, mas quando voltávamos pra casa a brincadeira era sempre junto: jogos de caixa (War, Banco Imobiliário,...), baralho, montar "Revel" no nosso QG na torrinha (uma bancada que montamos na torre da caixa d`água, que parecia nossa fortaleza - de lá de cima podíamos avistar todo o bairro. Na rua a turma brincava de esconde-esconde, polícia e ladrão, pega-pega. Também jogávamos bola na pracinha, ou na casa do Tó, que tinha um campinho muito jóia no quintal e foi onde disputamos nossa primeira olimpíada, com direito a medalha e tudo. Também praticávamos todos os tipos de esporte no clube, o Itaguará: futebol (treinávamos com o "Seu" Marucci, no Caquinho), jogávamos vôlei, basquete, tênis, ping-pong, dependia do que estava na moda entre a turma naquele instante.
Em casa tínhamos vários brinquedos. Com nossos brinquedos, nossos xodós, como o Playmobil, os Comandos Em Ação, o Lego, brincávamos só nós dois. Sempre existia o medo de um amigo cair em tentação e levar alguma coisa "emprestada", exatamente como eu mesmo fiz uma vez, confesso. Mas confesso também que não foi fácil assim, sem culpa. Fiquei me remoendo todo quando fiz isso, e graças a Deus parei por ai. Acho que e um tipo de coisa que acaba acontecendo com qualquer moleque: você conhece as barreiras e normalmente as respeita, afinal você foi educado para ter esse respeito, mas aí tem o diabinho que fala mais alto e você acaba ultrapassando algum limite. Acho que o fato acaba ensinando muito, e se a educação foi realmente boa, não há com que se preocupar - aquilo vai se fixar de tal forma na mente do "culpado", que nunca mais vai acontecer.
Tinha uma coisa que quando inventaram, virou febre entre a molecada, e jogávamos todos juntos, na casa de quem o tivesse: o vídeo-game. Foi objeto de cobiça de cada moleque, e as sessões eram concorridíssimas: cada um jogava contra o outro e quem perdia dava a vez ao próximo. O primeiro a ter um vídeo-game na nossa rua, se me lembro bem, foi o Luís Fernando, irmão menor da Fernanda, que acabou morrendo tragicamente num acidente de carro. Íamos todos pra sua casa, e cada um esperava ansioso sua vez de jogar, com os olhos vidrados na tela da TV. Lembro muito bem de quando ganhamos o nosso Atari, aquela caixona enorme embrulhada... Mas o vídeo-game disputava espaço com todas as outras brincadeiras, os brinquedos, os jogos na rua, os esportes no clube, a bicicleta. Só parei de brincar quando entrei no curso técnico de segundo grau, o Cotec.
Acho que aqueles 3 anos de curso técnico foram os que eu e o Dino nos separamos mais. Ele também passou no vestibulinho (e o desgraçado entrou melhor colocado que eu: eu passei em 15º e ele em 7º). Foi também nessa época que começaram os primeiros namoros, e dai as turmas começaram a ser diferentes. Meu irmão saía com a turma dele, a famosa turma do Guelo, e eu dificilmente acompanhava a galera quando eles iam encher (ou melhor, esvaziar) o caneco, no Beco, um obscuro barzinho com só eles de clientela - era isso mesmo, pois mesmo se tivesse mais alguém no buteco antes da galera chegar, era só aquele bando de beldo entrar dando risada e falando besteira que os casaizinhos começavam a pagar a conta e se mandar.
Nesses 3 anos comecei a namorar sério, tive meu primeiro emprego, e cheguei a levar uma vida de operário padrão por quase um ano. Eu acordava antes das 5 pra tomar o ônibus fretado para a Villares, em Pindamonhangaba, e voltava só a noite pra casa, acabado. Acho que desde àquela época eu coloquei na minha cabeça que trabalhar muito não leva o sujeito a lugar algum, você entra numa roda-viva e se fecha nesse mundinho casa-trabalho-casa-trabalho-casa-trabalho-casa, e quando você tem algum tempo livre quer mais é descansar. Cruz Credo!!!
Então pus na cabeça que eu tinha que dar novo rumo prás coisas, e encasquetei que tinha que fazer engenharia elétrica na Unicamp. Eu não escolhi só o curso: eu tinha que fazer na Unicamp, de qualquer jeito. Arranjei um jeito e fui até fazer cursinho em Campinas. Tanto fiz que acabei passando lá (e não passei em nenhuma outra que prestei...) O começo não foi nada fácil, tive até depressão, mas consegui encarar e tocar em frente. No meio da faculdade também não foi nada fácil, nem no final, mas daí o Dinão já estava lá comigo, juntos outra vez pra tocarmos em frente. Ele também passou na engenharia elétrica na unicamp, e eu só terminei a faculdade por causa disso. Com certeza eu devo meu diploma ao Dinão, que mandava muito bem nas matérias mais cabeludas - na verdade metade da nossa turma deve um pouco do diploma a ele... Nessa altura do campeonato, os namoros já tinham ido, vindo, e ido novamente. A coisa bacana é que estávamos novamente unidos, e mais un1dos do que nunca. Até por estarmos numa nova realidade, numa cidade diferente, grande, (Campinas é bem maior que Guará!) fazendo uma faculdade de deixar qualquer um louco, nós nos unimos muito, e sempre onde um estava, estava também o outro. Quando o Dinão se arrebentou naquele acidente de carro em Natal (dessa vez, graças a Deus, eu não estava junto - mas também se estivesse provavelmente a galera não teria se machucado tanto, eu sempre fui o chato que mandava todo mundo por cinto de segurança e eles estavam sem cinto na hora do acidente), bem, dessa vez eu fiquei como um enfermeiro, levando o mala de cadeira de rodas e depois de muletas prá cima e prá baixo - íamos almoçar no bandejão, e eu na maior cara de pau ia cortando na frente de todo mundo na fila, com duas bandejas, uma pra mim e uma pro folgadão que me esperava já sentado à mesa.
No período de faculdade minha turma e a do Dino voltaram a ser as mesmas. A mesma turma da faculdade, a NT94, e eu acabei sendo adotado como o mascote mais velho da turma do Guelo. Em Campinas, nós não só morávamos na mesma república, com mais uma galera da mesma turma, como o Dinão dormia em cima de mim - na parte de cima do beliche, é claro. Chegamos a morar com mais 8 amigos, todos da mesma sala da faculdade. Era na Big House, uma casona em Barão Geraldo com piscina, vários quartos e até pomar. Brincávamos que até onde a vista alcançava, aonde tinha um jequitibá, era tudo nosso!!!
Passamos os duros, mas ótimos anos da faculdade nessa toada, o Dinão em cima, eu embaixo, e nunca trocando de posição. Daí acabou, nos formamos, sem esquecer que durante a faculdade ainda fomos pro Alaska de jipe, junto com o paizão e a mama. Aguentei quase 7 meses a ranzinzice e a chatice do meu irmão, mas tudo bem, foi espetacular. Só não sei porque ele perdeu tanto cabelo durante a viagem, afinal ele viajou comigo, que sou sempre alto astral e bem humorado (ou é o contrário?)...
Pois é. Viajamos, estudamos, colamos, e até fomos eleitos pra gerir o CABS, o centro acadêmico da faculdade. Toda A turma se empenhou nessa gestão, inclusive umas amigas novas da engenharia química, e eu era o todo poderoso presidente do CABS. Adivinha então qual o cargo do Dinão? Ele era o príncipe do CABS, é claro. Então nos formamos e nosso rumo foi São Paulo, trabalhar. Pra variar tive depressão, afinal grandes mudanças exigem muito da minha frágil psique, e lá estava o Dinão por perto, com minha Mãezona e meu Paizão juntos, é claro, prá segurar a barra. E continuamos na mesma posição, eu por baixo e ele por cima, dormindo no beliche num quarto dum apêzinho, divido com o Fernandes, do Guelo. Passamos 3 anos assim, cada um labutando e ganhando sua grana, mas indo juntos nas baladas, nas viagens e pro que mais desse na telha. Na verdade, muito por minhas idéias de jerico, nós planejamos fazer juntos uma grande expedição pra dar a volta ao mundo, e até montamos um projeto profissional para buscarmos patrocínio. Só como aquecimento, planejamos uma viagem de bicicleta para as nossas férias, que marcamos para coincidirem no mesmo mês. Alguns meses antes tínhamos planejado começar um treinamento diário, para nos condicionarmos fisicamente prá viagem. Iríamos rodar de Fortaleza à São Luís, uns 1000 Km pedalando pelas praias. Foi aí que o Dinão começou a namorar a Pérola. No começo eu ainda insisti, eu enchia o saco dele para irmos treinar, e ele sempre arranjava uma desculpa esfarrapada: ele tinha que estudar prá Pós, ou tinha que ir não sei aonde com a Pérola, mas ele nunca dizia que não iria porque o negócio tava ficando sério, e ele na verdade nao queria passar suas férias longe do seu novo amor. Demorou um pouco pra cair minha ficha, eu ainda briguei muito pela "posse" do Dinão, mas a Pérola tinha "armas" que eu nunca ia ter... Fiquei ainda um bom tempo enchendo o saco dele, chamando ele de bananão (ela era a bananinha...), mas na verdade aos poucos fui me acostumando com a idéia, mas do que natural, que meu irmão estava realmente decidido e ele iria juntar os trapos, morar junto, constituir família, ter uma relação estável, amigar, contrair matrimônio ou, mais precisamente, casar. Contrair matrimônio é uma ótima definição, dá uma idéia bem realista, de doença... inclusive, quando eu vejo um casamento no civil, eu acho esclarecedor o fato de exigir testemunhas. Prá mim, qualquer coisa que precise de testemunhas é roubada: ou você cometeu um crime, ou fez alguma cagada, bateu o carro, atropelou alguém... daí as testemunhas. Mas cada um com sua loucura, né? Mas calma, que eu não sou assim totalmente contra a idéia, só acho que eu ainda não estou preparado. E o Dinão e a Pérola estavam dando cada dia mais provas que era o que eles realmente queriam. A Pepê é muito jóia, e mesmo sendo um irmão ciumento, eu acabei aceitando o fato de ter perdido a parada pra ela.
E tudo acabou sendo muito rápido. Um dia, voltando de são Paulo com o Dino, ele me conta, de supetão, que naquela noite, na festa de aniversário da Pérola, ele iria "pedir a mão" dela pro sogro. Acho que ele falou assim, de última hora, prá não dar tempo de eu bolar nada pra impedir. E eles fizeram tudo conforme manda o figurino: noivado, aliança, a noiva esperou até a data do casório prá sair de casa (se esperaram prá fazer outras coisas, só mesmo eles podem dizer...). E então de repente lá estava eu na igreja, parado ao lado do altar, mais um dos 28 padrinhos presentes - um recorde digno de Guiness book. Até então tudo normal, eu fazendo piadinha com a galera, as músicas do CD "Casamento Volume 1" tocando todas na sequência tradicional, e então começa a tocar aquela música parecida coma a marcha fúnebre, e entra a noiva, de braço dado com o pai. Tudo bem ainda, afinal eu sou mesmo uma alma de pedra, pensei. Mas aí, bem na hora em que o Dino pega a Pérola dos braços do sogro e os dois se viram para o altar, os dois vestidos certinho, noivo e noiva de bolo, tudo no lugar, com véu, grinalda, cravo branco na lapela e o escambau, bem nessa hora me dá um aperto, um nó bem cego no coração, e eu tenho a nítida impressão, por uma fração de segundo, de ver passar toda a vida do Dino vivida até aquele instante, na frente dos meus olhos. Fiquei impressionado com isso, e mais ainda, me segurei de verdade prá não chorar. Tudo aquilo que vivemos juntos, sempre eu e ele, tinha tido sua época, que naquele instante estava prestes a acabar definitivamente. Eu consegui me controlar e não chorei, acabei até dando r1sada com as piadinhas que o Dinão fazia nessa hora onde todos ficam tão sérios, mas que fizeram até o padre rir. Mas daquele instante em diante fiquei bem mais sério, e acho que cresci um pouquinho também - ou não, né? O importante é sermos felizes para sempre, até que a morte nos separe!!!
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